Que trem é esse? Esse som.. um som tão agradável, agradável
agradável som de trem, som de nada, som de tudo, estamos todos juntos, olha
mãe, meus olhos meu olhar, a beleza desse lugar, mas e o presente, que presente
será que irei ganhar, papai Noel vai chegar e vai me presentear, o papai é o
papai, é o papai Noel deve ser ou será... mas e o presente... o presente deverá
chegar.
Ela chegou com um pedaço de mortadela quentinha, eu e minhas
irmãs estamos arrumando a mesa, ele espreme a laranja, sinto, sinto o cheiro da
laranja, agora sinto o cheiro, sinto o cheio de tudo e tudo se mistura, ela
está trazendo o pão quentinho. Que mortadela deliciosa, que mortadela
maravilhosa. Cheiro de Comida, cheiro de mãe fazendo comida e o pai carrega no
colo, o pai cansado com sorriso no rosto, ninguém parava de falar, criança
corre pra lá e pra cá, o pai é magestoso, como pode estar com um sorriso no
rosto... a vovó com seu cheirinho de idosa, cheiro de sabonete de idoso é tão
gostoso, cheiro avó é o melhor.
Essa boca, cabelo castanho,
castanho- claro, castanho- escuro, ruivo, preto, azul, preto, azul.. por que
ela implicou tanto comigo, Jessica, Amanda Maria, Martha Maria, Isabela,
Margarida, Ana, Rebeca, Nicole, Maria Maria a mãe do filho de Deus, Maria minha
mãe, mas aquela Maria,.. eu estava no
banco, sento não agüento levanto o que é aquilo? Ah,.. lá está ela. Pare de me
ignorar! Os meninos afinavam o violão, músicas em todo lado, a bateria, o violão,
a guitarra. Isso é uma carta, um beijo, tem presente melhor do que um beijo, eu
quero um beijo vem me dá um beijo eu eu eu quero um beijo. Olha pra mim!!! É eu
só quero um, eu só queria abraçar e melhorar... Eu só queria melhorar, eu só
queria falar, viajar, o que eu estava falando? Há o que é isso? É é uma carta
pra mim... Uma carta para mim. Ela deixou uma carta pra mim, eu olho a carta, o
papel corta meu dedo, seu cheiro, sua cor. Eu tanto espero e agora ela fala que
gosta de mim, eu poderia tê- la beijado, um beijo gostoso, um beijo amado, mas
criança não sabe nada disso, nem sei
mais de nada, eu beijei ou deixei de beijar, tanto faz ela agora está... Essa carta
é para mim”?
Eu gosto tanto de você... eu
gosto, gosto tanto tanto de você, SHhhhhhhhh..
Eu juro, eu juro que ele piorou
quando foi para o andar de cima. Espera! É você,... não, pai, avô. Pai também é
avô, eu não compreendi todo aquele alvoroço, a mãe corre para um lado a avó
corre para o outro e a titia, tudo bem, ta tudo bem, (ânsia) não, (raiva e dor)
não ta tudo bem coisa nenhuma. Ele ta perdendo peso, ele ta ficando mal, senta,
levanta, o corpo clama, estala, (tenta segurar a dor para si mesmo para que os
outros não escutem) Shhhhh....
(três propostas para morte numa
pesquisa pessoal que por vezes se choca, ora pesquisa pessoal, ora couro. As
pessoas que ali estão se levantam, ficam olhando eretas)
(dor que penetra o corpo e te faz
cair no chão) Ahhhh (grande pausa. Uma sensação lhe corrompe, a perda, como uma
criança que deixa quebrar um brinquedo precioso e tenta pega-lo com todo
cuidado, juntando cada peça) não, não, não, não. (Pessoas espalhas pelo palco
seguem em sua direção, cada um com uma partitura corporal diferente, sugere a
ação- A culpa não foi minha! (As pessoas que se encontram eretas no lado
oposto, começam a caminhar em sua direção, lhe fecham, como uma sombra que
invade toda a luz que outrora iluminava seu quarto e falam em voz mais elevada
e grave, como soldados que cantam um grito de guerra enquanto marcham)- A culpa
foi toda sua! A culpa foi toda sua!! ( As sombras caem ao chão
Tem mata, tem madeira, azulejo,
tem tijoulo, sensação que não quero esquecer, mas porque ... não não não...
Casa antiga, bem antiga, gente nova bem vivida, gente feliz, toda essa gente
feliz, Um cheiro um cigarro, ela me aparece como num estalo, mãe, mãe nada,
avó, vó melinda, mãe mais que avó, o cigarro, o fumo, cheiro de fumo, que
saudade disso tudo, é muita saudade, saudade de mãe, saudade de vó, saudade que
se esvazia, vida e morte, a morte me impediu a despedida.
1. LETRAS DE MÚSICAS DURANTE PESQUISA DO PROJETO HIBRIDIZAÇÃO
Zé Ramalho (Avôhai)
Um velho cruza a soleira De botas longas de barbas longas de ouro o
brilho do seu colar Na laje fria onde quarava sua camisa e seu
alforje de caçador Oh meu velho e invisível Avôhai Oh meu velho e indivisível Avôhai Neblina turva e brilhante em meu cérebro
coágulos de sol Amanita matutina que transparente cortina ao
meu redor Se eu disser que é mei sabido você diz que é
bem pior Mas é pior do que planeta quando perde o
girassol É o têrço de brilhante nos dedos de minha avó E nunca mais eu tive medo da porteira Nem também da companheira que nunca dormia só Avôhai Avô e o pai Avôhai
O brejo cruza a poeira De fato existe um tom mais leve na palidez
desse pessoal Pares de olhos tão profundos que amargam as
pessoas que fitar Mas que bebem sua vida sua alma na altura que
mandar São os olhos são as asas/cabelos de Avôhai Na pedra de turmalina e no terreiro da usina eu
me criei Voava de madrugada e na cratera condenada eu me
calei Se eu calei foi de tristeza você cala por calar E calado vai ficando só fala quando eu mandar Rebuscando a consciência com medo de viajar Até o meio da cabeça do cometa Girando na carrapeta no jogo de improvisar Entrecortando eu sigo dentro a linha reta Eu tenho a palavra certa pra doutor não
reclamar Avôhai, avôhai, avôhai, avôhai
2.Perfeição (Legião Urbana)
Vamos celebrar a estupidez
humana A estupidez de todas as nações O meu país e sua corja de assassinos Covardes, estupradores e ladrões Vamos celebrar a estupidez do povo Nossa polícia e televisão Vamos celebrar nosso governo E nosso Estado, que não é nação Celebrar a juventude sem escola As crianças mortas Celebrar nossa desunião Vamos celebrar Eros e Thanatos Persephone e Hades Vamos celebrar nossa tristeza Vamos celebrar nossa vaidade.
Vamos comemorar como idiotas A cada fevereiro e feriado Todos os mortos nas estradas Os mortos por falta de hospitais Vamos celebrar nossa justiça A ganância e a difamação Vamos celebrar os preconceitos O voto dos analfabetos Comemorar a água podre E todos os impostos Queimadas, mentiras e sequestros Nosso castelo de cartas marcadas O trabalho escravo Nosso pequeno universo Toda hipocrisia e toda afetação Todo roubo e toda a indiferença Vamos celebrar epidemias: É a festa da torcida campeã.
Vamos celebrar a fome Não ter a quem ouvir Não se ter a quem amar Vamos alimentar o que é maldade Vamos machucar um coração Vamos celebrar nossa bandeira Nosso passado de absurdos gloriosos Tudo o que é gratuito e feio Tudo que é normal Vamos cantar juntos o Hino Nacional (A lágrima é verdadeira) Vamos celebrar nossa saudade E comemorar a nossa solidão.
Vamos festejar a inveja A intolerância e a incompreensão Vamos festejar a violência E esquecer a nossa gente Que trabalhou honestamente a vida inteira E agora não tem mais direito a nada Vamos celebrar a aberração De toda a nossa falta de bom senso Nosso descaso por educação Vamos celebrar o horror De tudo isso - com festa, velório e caixão Está tudo morto e enterrado agora Já que também podemos celebrar A estupidez de quem cantou esta canção.
Venha, meu coração está com pressa Quando a esperança está dispersa Só a verdade me liberta Chega de maldade e ilusão.
Venha, o amor tem sempre a porta aberta E vem chegando a primavera - Nosso futuro recomeça: Venha, que o que vem é perfeição
Com base nas pesquisas anteriores, estou iniciando as fundamentações para um possível esboço de roteiro, refiro- me assim, pois precisarei de 3 encontros para testar jogos que demorei a encontrar como uma lógica para o que idealizo. Quando refiro- me a hibridização, falo de um corpo único criado a partir de vários materiais. No work- in- Progress que apresentei juntamente aos atores voluntários, depois de muto analisar pude perceber muitas falhas, primeiramente relacionadas aos acessórios, às canções e ausência de regras, exceto pelos bastões, aonde percebi algo que foi criado, algo que fizemos de objetos único, porém cheio de propósitos. Pergunto- me como anexar as cultura sem precisar destacar algo que ficou quase como um arquétipo durante a apresentação.
Costumes
Meu maior passatempo é tudo o que envolva a coreia do sul, isso porque realmente tenho fascínio absoluto alguns aspectos e valores culturais desse país. Assistindo alguns programadas dos cantores que admiro, encontrei uma brincadeira sugerida por Nam Woo- hyun, que tem como base a criatividade. Nela, é escolhido um objetivo específico, porém ao entregar para cada jogador, esse deve encontrar uma diferente analogia ou significado para o mesmo, exercendo uma ação.
Observação: A brincadeira inicia em 05:09.
Anexar regras de movimentação corporal e fala interna específicas de uma cultura, inciar a pesquisa com as regras diferentes em cada ator, exercer o campo de visão e observar como o ator pode exercer as ações sem tirar a base de suas regras internas.
Um corpo corporal e vocal comporto por expressões faciais distintas.
Encontro 13 de Fevereiro de 2017
Estiveram presentes os participantes:
Caio Pereira
Nicole Frechiani
Pedro Souza Lopes
Foram discutidas as bases da pesquisa, o que se pretende, tendo em conta os novos participantes e mudanças após a apresentação do work in progress na VI Abertura de Processos. Levando em consideração o retorno das atividades, decidi aplicar os jogos mencionados acima como meio gerador de criatividade e diálogo entre os mesmos.
O Jogo: Criar regras para os atores e a situação sem determinar o que estão fazendo.
Cada um tinha direito a escolher um objeto e modificá- lo sem ter de repetir ou agregar o significado original.
I. parte: acrescentamos os sotaques provenientes da Bahia, Itália e Rio de Janeiro, com as seguintes regras, quando eu batesse palma os atores roubavam o sotaque uns dos outros, se eu falasse troca, eles tinham de trocar os objetos. Durante esse momento percebi que o uso de sotaques prevaleceu mais em jogo do que o significado dos objetos.
II. parte: Excluímos o sotaque e acrescentamos o congela alternando entre os três atores e os resignificados dos objetos a cada congela. Nesse momento surgiram três situações interessantes envolvendo a criatividade de cada um dos participantes.
Caio Pereira: Utilizou o Copo Comprido como um Bolo que tinha uma vela invisível. Começou o jogo com pouco diálogo e na ausência dele, improvisou a repetição, levando à frente de Pedro a todo momento para que ele assoprasse, Pedro sem saber o que fazer apenas assoprava e num momento estagnou empurrando um pouco o copo contra caio. Durante todo o jogo eu tentava manter exatamente a exaustão dos atores para que surgisse algo, até onde iria a criatividade, e, o fato de que Caio achou um modo de lidar com essa estagnação levou a esse possível desdobramento.
Nicole: Chuveiro de Moedas. A utilização de moedas no lugar da água remeteu- me à capitalização e agregação de valor a tudo, fez- me pensar por exemplo em cidades em que a urbanização, circulação de dinheiro e rotina são muito manifestadas, como por exemplo São Paulo.
III. parte: Ator Objeto. Demos esse nome exatamente por trocarmos os objetos em cena por atores. A base era que o corpo mostraria uma posição e a mesma seria o ponto de partida para imaginar o objeto em cena.
Pedro: Mão de Pedro como roupa de nicole, especificamente um biquini. Nesse momento Nicole falou congela e apropriou- se da posição de Pedro para colocar as mãos do mesmo como peça de roupa. O fato de resignificar o próprio corpo leva- nos à ideia de transformação do original em algo único.
Apesar de não ter me mantido nesse momento na proposta inicial de treinamento energético, ao final do encontro, ambos chegamos à conclusão da necessidade de tê- lo feito independente de se tratar de jogos ou não, essa resposta foi exatamente por conta dos movimentos que surgem durante o treinamento, de repente a dilatação ou minimização seria fundamentais para a criação da composição corporal dos mesmos. Como mencionado, vi a necessidade de aplicação do jogo como meio de usar a criatividade para resignificar, tendo em conta um ser híbrido. Outro ponto que percebi é a importancia do olhar de fora, exemplo disso foi o fato de ter participado na apresentação anterior e por conta disso não ter percebido alguns pontos fundamentais a tempo de trabalhar mais com os participantes.
17 de Fevereiro de 2017
Citações
SILVA, Jerônimo O CORPO HÍBRIDO NA PERFORMANCE TEATRAL.U. Porto. 2015
(...) aquele corpo alterado, modificado, tanto por fatores exógenos como por fatores
endógenos. p. 02
De Platão a Bergson, passando por Descartes, Espinosa, MerleauPonty,
Freud e Marx, a definição de corpo sempre pareceu um
problema: para alguns, ele é ao mesmo tempo enigma e parte da
realidade objetiva, isto é, coisa, substância; para outros, signo,
representação, imagem. Ele é também estrutura libidinal que faz dele
um modo de desejo, corpo natural que passa a outra dimensão ao se
tornar corpo libidinal para outro, uma elevação em direção a outrem: o
Eu do desejo é evidentemente o corpo, diz a psicanálise (NOVAIS, p.
9). p. 05 SILVA, Jerônimo apud Novais
Interessante no artigo a maneira como é narrada a história, dando ênfase em cada detalhe, a narração encontra- se em primeira pessoa, no entendo recordando tempo passados. Penso na criação de uma possível narração para criação de cena, mas apenas como guia de estrutura para cada detalhe durante a performance, não sairá da boca do ator, mas se expressará diante do corpo do mesmo.
Na minha vila, a única vila
do mundo, as Mulheres sonhavam com vestidos novos para saírem. Para serem
abraçadas pela felicidade. A mim, quando me deram a saia de rodar, eu me tranquei em
casa. Mais que fechada, me apurei invisível, eternamente noturna. Nasci para cozinha,
pano e pranto. Ensinaram-me tanta vergonha em sentir prazer, que acabei sentindo
prazer em ter vergonha. Belezas eram para as mulheres de fora. Elas desencobriam
as pernas para maravilhações. Eu tinha joelhos era para descansar as mãos. Por isso,
perante a oferta do vestido, fiquei dentro, no meu ninho ensombrado. (p. 19)
Durante o treinamento energético com uso de sons, pareceu completar o efeito de paisagem sonora, alguns sons abstratos produzidos pelos participantes.
Foram os voluntários, Caio Pereira, Sandra Chagas, Pedro Lopes e Mari.
Para esse encontro foi planejado o Treinamento Energético corporal, composto por Campo de Visão, Campo de Audição, repetição, Palavras Improvisadas, Sons Abstratos e Espelho.
Separei os participantes em Duplas.
1. Pedro e Sandra:Aquecimento corporal/ Pesquisa corporal envolvendo beliscar, puxar, empurrar.
2. Caio e Mari: Aquecimento Corporal/ Pesquisa Corporal no chão.
1. Pedro e Sandra: Pesquisa corporal com Repetição- para cada movimento exercido por Sandra, Pedro deveria repeti- lo 5 vezes e logo depois seguiria para o primeiro movimento que a visse exercendo seguindo as sequencias de repetições;
2. Caio e Mari: Para cada movimento que Mari exercia, caio repetia 10 vezes;
1. Pedro e Sandra: Sandra começou a dar sons abstratos para os movimentos;
2. Caio começou a dar sons abstratos para os movimentos ao passo em que Mari repetia 10 vezes e durante essas 10 vezes ela seguia os sons seguindo a regra de começar em baixa frequência e ir aumentando conforme exercia a repetição.
1º ordem de Repetições: Pedro- Sandra- Caio- Mari
2º ordem de Repetições: Mari- Pedro- Sandra- Caio
Obs: Aspectos a serem trabalhados em Mari, em relação a expressões mais agressivas. Mari consegue segurar muito bem, mas agora é necessária a busca de expressões mais abstratas, algo que remeta quase à marionetes.
O método de repetição como regra para movimento, determinando a série de repetições para cada um dos membros foi fundamental para o surgimento de recortes para a performance. O uso da frequência em conjunto com a expansão e volume dos sons que Mari repetia de Caio também funcionou. Ex: Sandra: Pihhh e Mari: AHHH, enquanto parecia dançar no espaço. Houve um momento que considero como a explosão do momento de mari, em que detalhes, nuances emergiam da voz e movimentos que se repetiam. Lembrando que a repetição foi a alternância que decidi acrescentar como meio de sincronizar os resultados parciais entre o campo de visão e ação e reação.
Movimentos Geométricos surgiram com bastante frequência. Durante a pesquisa de Pedro e Sandra, observei durante várias vezes a busca de equilibrio e resistência corporal que se compunha através de prancha, abdominal e flexão bem como também a linha invisível que parecia se formar enquanto Sandra caminhava alternando lentamente e minuciosamente seus passos um na frente do outro.
Regra de palavras improvisadas- As Regras foram escolhidas para Sandra e Mari. Algum tempo atrás Sandra comentou sobre fazer rimas e versos, que é algo que gosta muito, fiquei pensando num meio de utilizar esse dom e coloca- lo em teste, o que resultou num possível desdobramento muito potente, ao passo em que sandra realmente se focou em palavras repetidas ou obsoletas e por vezes teve de recorrer ao contexto no qual já está inserida, sobre o falar de preconceito, racismo, discriminação; Mari recorreu à música. Escolher mari para falar foi algo pensado minuciosamente. Um tempo atrás enquanto ensaiávamos para uma peça, Mari disse que não conseguia falar rápido, então acrescentei junto à regra o grito para cada vez que ela parasse de falar, Mari deixou surgir a reflexão sobre política, violência e existência.
Obs: Enquanto Sandra falava, tornava- se difícil seguir o campo de visão. Seria o caso de colocar palavras chaves para o surgimento de improvisos? Ou poderá ser uma questão de costume com a rima e movimentos condicionados pelo campo de visão? Houve um momento em que o campo de visão tornou- se quase um diálogo entre campo de visão e ação e reação. Sandra falava e tentava seguir Caio, mas Caio virava e Sandra demorava a receber o sinal de que deveria virar também, durante vários momentos foi visto Sandra e Caio de frente para o outro e Caio exercendo o gesto de indicação com o dedo para Sandra virar e ao compasso em que a mesma virava, seu corpo tentava reagir às palavras que surgiam, mas sempre gritávamos como meio de percepção, a contra regra para que ela lembrasse que não deveria parar de falar e não deveria se mexer quando Caio estivesse fora de seu campo.
Houve momentos em que palavras e ações exercidas no campo de visão da dupla Mari e Sandra se complementaram, formando figuras não mais estranhas, mas propriamente "imagens que falavam sobre coisas".
O espelho entre Caio e Pedro mostrou a contraposição entre o rápido, grotesco e exagerado e o singelo, minucioso, e detalhado quase como uma pena que plainava conforme o vento soprava em várias direções.
O seguinte pesquisa tem por base as várias tecnicas utilizadas pelo ator embasadas entre oriente e ocidente.
De acordo com a análise de BENTLEY sobre Teatro, refere- se ao mesmo como um contexto social mais do que um gênero artístico específico.
Antropologia Cultural: Observação e análise dos grupos humanos tomados na sua especificidade.
Cada sociedade "impõe ao indivíduo um uso rigorosamente determinado de seu corpo", (...) pois cada técnica corporal funda- se sobre certas sinergias nervosas e musculares que constituem verdadeiros sistemas, solidários de todo um contexto sociológico. Essas técnicas são assimiladas através da educação e da imitação, mas no ato da imitação intervêm elementos psicológicos e biológicos de cada indivíduo (MAUSS, 2003), tornando- as "montagens fisio- psico- sociológicas de séries de atos"
LÉVI STRAUSS in MAUSS, 2003. P. 12
A partir desta análise pode- se perceber uma série de fatores que diferem indivíduos dentro de uma sociedade. Para chegarmos numa ideia mais precisa, voltemo- nos para algumas observações à respeito do indivíduo inserido em sua cultura. Observando a cultura chinesa, podemos ver vários aspectos muito próprios do país que nos possibilitam identificar aquele povo como chinês, desde seus princípios religiosos, características, fonética do idioma, princípios, costumes até seus gestos; contrapondo totalmente, analisamos agora a Alemanha, cujos idioma, fonética, característica fisio- psico- sociológicas, crenças, costumes já são completamente diferentes da china. Numa observação mais aprofundada, poderia até chegar a afirmar de antemão que, se eu fosse conhecer um dos dois países, perceberia que mesmo dentro dele, haverá cidades de interiores com costumes completamente diferentes dàqueles que vivem na cidade ou capital. Nesse contexto, percebe- se o quanto a cultura é por si só muito singular em cada sociedade. Ao falar em singularidade retomo a hibridização. Fabre, em suas obras, relaciona formas artísticas dentro de um projeto de investigação que, em sua maior parte, mobiliza temas e ambições que vão muito além de uma mera experimentação de linguagem, percebe- se não apenas a experimentação, mas a crítica, um fundamento, uma lógica que necessita de reflexão. Ele reorganiza elementos advindos de cada linguagem, e a essa linguagem refere- se a cada elemento formado que sofre toda uma reconstrução, nenhum elemento que fica composto por si só com uma auto explicação, mas sim como um elemento único, um elemento que passou por uma metamorfose e tornou- se híbrido. Tendo em vista essa reconstrução, volto- me para os treinamentos exercidos em laboratório com os atores. Por ter limitado minha visão ha um contexto específico, acabei por deixar passar algo imprescindível, as figuras que se formavam estranhamente nos frames.
campo de visão I
Aposta- se nos vários desdobramentos que podem ser constituídos a partir de cada frame, os desdobramentos nos revelam pessoas distintas, lugares diferentes, culturas diferentes, princípios diferentes.
Pesquisa pessoal
Durante o treinamento energético, por vezes pedi aos atores que retomasse pesquisa pessoal, com movimentos que lhe deixassem mais desconfortáveis para que posteriormente fizessem a alternância em campo de visão, reflexo, espelho, e ação e reação. Revendo algumas das formas dessas figuras estranhas, pode- se criar também situações. A situações são apresentadas com as regras básicas de lugar, quem e fazendo o que- trazendo para as figuras uma contextualização. Em sua pesquisa BENTLEY nos proporciona uma visão clara do indivíduo que se caracteriza como parte de uma sociedade através de suas características fisio- psico- sociológicas. E, durante o treinamento, vimos como numa formação de um coro híbrido, através do campo de visão, essa característica singular.
Campo de visão II
Outro ponto a ser verificado é o som. Percebe- se que uma das grandes identificações sobre nacionalidades advém da fonética e vícios de linguagem, bem como a identificação de um mesmo fruto ou objeto em diferentes estados de um país. É importante salientar essa importância como algo é ser elaborado com muitas regras, pois quando tratamos de identificação podemos dizer que aquele ator é de um determinado estado ou que aquele ator está representando um personagem de um determinado estado. Porém, o objetivo é fazer do ator essa figura transformada, essa figura que sofre uma mutação e torna- se um ser híbrido.
Pensar a performance como uma comunicação voz como parte do corpo e voz como um fragmento. Como assim? A possibilidade de alternar com um coro de atores falando numa sonoridade e idioma híbrido enquanto se alterna os movimentos.
Suposição: Na figura Campo de Visão 2, há um coro composto por um campo de visão. Poderia exercer a voz com o corpo num coro completo em contraposição a outras figuras formadas por atores enquanto performam. Os deslocamentos são algo a ser pesquisado minuciosamente. Dando forma às cenas e transições de cenas. Pensar no local de apresentação, seria uma performance para ser elaborada na rua? como seria exercida a pesquisa em cima da voz do ator e sua projeção visando esse ambiente? Seria dentro do teatro? É algo a se pensar.
Segundo BETLEY, umas das principais contribuições de Kathakali para sua pesquisa é a PRECISÃO. Pois, de acordo com o mesmo, o mais simples gesto é estudado para eliminar tudo o que possa conter o banal e vulgar. (p. 03) o que implica a regra como base fundamental, determinar movimentos minuciosos, expressões como por exemplo: expressões opacas, o susto, o medo, o espanto isso pode contribuir precisamente no resultado de um coro híbrido.
O treinamento desse tipo de técnica pode propiciar para o trabalho da mimese corpórea uma atenção minuciosa e detalhista perante as diferentes tensões, inclinações e direções do corpo observado.
Trata- se da recriação do material coletado, logo o material coletado serve como matéria prima para a pesquisa que é desenvolvida. São fragmentos de comportamento que podem ser rearranjados e reconstruídos e é a partir do mesmo que o ator busca um equivalente orgânico ao que foi observado. Seguindo essa linha, há a matéria prima- o material coletado, há a observação da matéria prima e as técnicas abordadas durante essa observação para que posteriormente encontre esse rearranjo. A observação proporciona o estudo minucioso de cada detalhe do movimento, gestos e expressões corporais.
Fig.1. A Casa de Lá. Direção Ricardo Gomes
Fig.2. A Casa de Lá. Direção: Ricardo Gomes
A Casa de Lá, com direção de Ricardo Gomes, que teve como referência literária a obra de Guimarães Rosa, foi criada a partir da improvisação de atores. Saliento nesse ponto a pesquisa elaborada para a obra, que partiu de uma pesquisa de campo no bairro de Jequetinhonha (MG) e os materiais utilizados durante a cena. Durante a VI Abertura de Processo de Criação do Curso de Artes Cênicas, pudemos ver apresentações de outras pesquisas, dentre as quais destaco duas especificamente, a primeira e principal, cuja base é fundamentada em Arte Terapia, com o tema de pesquisa: INTRATEATRO, de Allan Maykson. Durante a apresentação com base na pesquisa, os voluntários partiram de uma busca com vários materiais dentre os quais haviam lãs e tecidos de material leve. Apesar de não ter sido intenso, sob meu ponto de vista, o conjunto de lençoes naquele momento, vi que de repente poderia ser feito um experimento com esse material, pensando exatamente no coro de atores. Isso está em processo de pesquisa.
Para pesquisar:
BARBA, E.; SAVARESE, N. A arte secreta do ator: dicionário de antropologia teatral.
(supervisão de tradução de Luis Otávio Burnier). São Paulo: Hucitec/Unicamp, 1995.
BROOK, Peter. A porta aberta. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.
BURNIER, L. O. A arte de ator: da técnica à representação. Campinas: Unicamp, 2001.
LÉVI-STRAUSS, C. Antropologia estrutural. (tradução: Beatriz Perrone-Moisés). São Paulo:
Cosac Naify, 2008.
MAUSS, M. Sociologia e Antropologia. (tradução: Paulo Neves). São Paulo: Cosac Naify,
2003.
REFERÊNCIAS
BENTLEY, Nataly. Teatro, Antropologia e a Arte do Ator Entre o Oriente e o Ocidente. VI Congresso de Pesquisa e Pós- Graduação em Artes Cênicas, 2010.
ALMEIDA. Joana Dória de. Jan Fabre e a Construção de Um Teatro Híbrido. Sala Preta. 2009.