segunda-feira, 16 de maio de 2016

Você é Bonita!

Aula de Corpo I
Vila Velha- ES em 16 de Maio de 2016

Essa aula foi muito incrível e mexeu muito com meu subconsciente. Acredito que depois de ver nossas explosões, Rejane decidiu ver algo mais voltado para o naturalismo, algo que gerasse um conflito interno. Que nos remetesse há um momento em nossas vidas que tudo o que havia éramos nós e o ambiente. Ela chamou esse momento de ensaio orgânico. Nos entregou uma folha e pediu que cada um fosse para um canto e lembrasse no que pensava ou falava naquele momento. E depois faríamos a partitura corporal tendo em conta esse acontecimento. A princípio eu fiquei pensando sobre esse momento... De um tempo cheio de turbulências interpessoais. Eu estava me tratando numa psicóloga, isso porque criei uma barreira à minha frente que impedia que as pessoas chegassem perto de mim e me refiro à homens. Eu não conseguia explicar, simplesmente maltratava verbalmente ou mentia para qualquer rapaz que começasse a gostar de mim. Lembro de não suportar quando ficava na companhia masculina de alguém... Eu tinha um amigo e ele passou a gostar muito de ficar perto de mim. Então quando vi que estava sentindo algo mais forte pelo mesmo, resolvi tomar uma atitude de afasta- lo de uma forma muito injusta,... Contei à minha mãe e ela disse que eu não era esse tipo de pessoa e que tinha de encontrar o motivo de tratar mal as pessoas que amo. Passei a receber apoio psicológico na Instituição Federal do Amazonas, aliás um excelente apoio. Descobri depois de algumas sessões que o motivo de afastar os homens era por causa do relacionamento de desgosto que tive durante a infância com meu pai vendo- o bêbado e se metendo em confusão,... eu era uma criança mas isso deve ter sido forte o suficiente para me comprometer psicologicamente. Obviamente que nunca machuquei ninguém, apenas afastava àqueles para que eu evitasse qualquer sofrimento semelhante. Eu perdi meu amigo por uma suposta bobagem,... Além desse detalhe percebi que estava me menosprezando,.. eu me achava muito feia e não sabia o motivo de alguém ter que gostar justamente de mim, muitas coisas ficavam pairando em meus pensamentos,.. hoje fico até rindo me chamando de adolescente, mas pessoas fazem atos piores por menos não é? Não sei se já cheguei a comentar, mas o ponto em que decidi parar de vez de fazer isso comigo foi depois do seguinte acontecimento. Passei a manhã triste, me martirizando,, com medo do mundo. Tudo o que queria era sumir, eu não tinha mais a dança, não queria mais continuar o curso e nem sabia porque continuava frequentando as aulas,... comecei a conversar comigo mesma,... meus braços pareciam pesados. Após andar de um lado para o outro no quarto, decidi sentar, vários papeis encontravam- se espalhados pelo chão. Tentei repetir para mim mesma escrevendo naquelas folhas, você é bonita! Você é bonita!Senti minhas mãos tremendo, eu estava com tanta raiva de mim por tudo aquilo, impensadamente minha mão começou a escrever as mesmas frases em meu corpo. Depois de cair no vazio, com medo de mim e da pessoa que poderia me tornar, caminhei até o espelho e olhei- Sami,você é uma obra de arte linda, porque está fazendo isso... meus pensamentos foram interrompidos pela voz de minha mãe que passara o dia preocupada pelo fato de sua filha não ter saído para fazer nada. Fiquei triste comigo depois daquilo e decidi que não era só questão psicológica, que eu não era aquele tipo de pessoa e no outro dia resolvi mostrar meu rosto para a vida e começar a me aceitar, meu amigo continuou meu amigo mas evitou ter outro tipo de relacionamento que não fosse apenas nossa amizade.


Esse momento foi muito importante para mim porque representou uma fase, representou memórias que por vezes preferimos esquecer, mas não consigo mais viver sem as palavras lindas de Bogart, não sei se meus colegas leram o texto completo, mas há uma lição de aprendizagem ali. Enfrentar o medo, enfrentar o que nos incomoda realmente ajuda a chegarmos num ponto de êxtase, aonde a fala interna toma conta de nosso ser. A outra pessoa que despertou muito a minha atenção durante a partitura foi a Anne, que vivenciou a primeira vez que viu a neve, ela realmente conseguiu chegar naquele momento, pois senti a energia e brilho nos olhos dela. Eu amo ver as partituras de Caio porque vejo nele um potencial incrível, ele sabe quebrar a dilatação com o encapsulamento de uma maneira que vejo em poucos e me incluo nisso.  

Referências

BOGART, Anne. A Preparação do Diretor. São Paulo, 2011.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Política do E por OU

Jogos Teatrais I

Vila Velha- ES, em 11 de Maio de 2016

Fatos sobre essa aula.
1. Falta de comprometimento geral;
2.Falta de poética;
3.Entender quando é necessário parar;
4. Confiar no olhar do diretor.



Bem, essa aula não foi das melhores e posso isso escolhi essa cena que é uma de minhas preferidas de HeartStrings, aonde é criado uma expectativa em torno de algo, que no final não dá certo. Acredito que chegamos num ponto em nossa turma que provavelmente uma conversa com todos, para descontrair ou gerar impulsos criativos seria uma ótima opção. Isso porque tenho sentido ultimamente climas diferentes, eu não sei afirmar se isso é totalmente comum ou não, sabe, essa história de quem é melhor ou de que possa haver panelinhas... Pode ser uma tendência do curso e não somente nesse curso mas em quaisquer outros. Nós procedemos no ensaio para a peça "Sente- se quem puder", mas durante os improvisos a Rejane informou que não havia mais explosão como antes. E que precisávamos pensar o quanto antes o que fazer, o que mudar, para salvar a peça. O detalhe é que mesmo mudando, já havíamos feito toda uma preparação e divulgação da peça. Logo, eu imaginei que criaríamos uma alternativa dentro do jogo que segurasse os improvisos e que gerasse novamente a explosão que tanto procuramos. Mas, não foi bem assim que ocorreu. Depois de certos stress decidimos parar a aula, fazer uma grande e discutir o assunto. Cada um foi dando sua opinião e se não me engano, PH sugeriu que fizéssemos os jogos de improvisos no lugar da peça. Praticamente todos foram contra, mas Rejane gostou da ideia. Quanto a mim, não digo que fiquei em cima do muro, apenas imaginei e por que não fazermos os improvisos? A peça ficaria linda com certeza, isso "SE", houvesse mais comprometimento de todos os grupos e me incluo nisso, se houvesse mais ensaios e "ORGANIZAÇÃO". Eu não precisei ser professora para ver na hora o quanto estava faltando de nossa parte, sem poética, sem chegarmos à vulnerabilidade em palco, tirando assim a beleza do improviso. Eu costumo ter um sério defeito, por vezes fico louca de vontade para desenvolver uma ideia, mas quando estou em grupo e sinto que tudo deve ser pelo grupo, eu perco muito desse desejo próprio e priorizo o grupo, priorizo acima de tudo o que possa ficar belo aos olhos de quem realmente tem que ficar, e nesse caso é o público. E, quando vi o olhar de Rejane, entendi... temos que mudar. Então, resolvi falar a favor de PH e contribui informando que poderíamos por exemplo, encontrar sempre um modo de colocar a cadeira em pauta nos improvisos e isso seria uma forma de não abandonar todo o trabalho em cima da divulgação. Mas, essas ideias soaram como o fim do mundo para a turma. Imediatamente, começou a confusão. Pessoas falavam, "eu não vou fazer", "eu não estou preparado" ou "Vai ficar uma merda" e "Só favorecerá aqueles que já são bons no improviso". Eu não me sinto boa no improviso, mas quando vi toda energia negativa, decidi que já passou do tempo de me soltar, de deixar minha voz ecoar,... Há uma Samires que eu sei que existe e estou louca à busca dela, porque se há algo que não costumo aceitar é no "impossível" ou no "não vai dar certo". Então vendo aquilo pensei que não é questão de PH aparecer mais ou Diogo ser excelente, é questão de um pouco mais de experiência e é questão de encontrar no medo as respostas. A questão toda é que a briga não terminou quando a aula acabou, a Rejane precisou conversou durante um longo tempo com todos. E depois de muita discussão, deixaram apenas a voz de Rejane ecoar. Seria realmente essa a hora de sentar para conversar, o que ela pediu para fazermos na próxima não foi improvisar e sim fazer um brainstorming de situações e ler um texto que falava sobre essa TAL TIMIDEZ. Você estar se perguntando por que eu coloquei o tema sendo pelítica do E por OU? Bem, a política do "E" é referente ao artigo de Rejane, cujo tema é Arranjo e Enquadramento na Política do "E": Por uma Pedagogia do Teatro Híbrida, e, o OU que coloquei foi como uma quebra do que seria adicionar e lidar com o problema pelo trocar como solução do problema. Fiz essa controvérsia porque parei para refletir mesmo depois dessa aula. Eu refleti sobre até que ponto deveríamos agregar o E como adição híbrida e o ponto em que teríamos de mudar tudo desde o início. Porque chegamos nesse ponto? Há uma forma de recuperar essa tensão, essa incidência que gera a poética quando junta ao enquadramento? E quanto à mudança? Nesse estágio essa mudança não seria um tudo ou nada? As vezes um obstáculo pode ser a faísca de uma centelha, pode ser o princípio de uma explosão. Acho que nossa turma ainda encontra- se muito limitada à zona de conforto. Eu não sei como é o olhar dos meus amigos quanto à esse curso. Mas o meu é, sim vamos tentar, sim vamos criar, .. eu não costumo falar isso para o meu marido porque ele é maravilhoso, mas esse curso é minha vida. Isso porque percorri e ultrapassei várias barreiras para chegar aqui e ajudar a fazer acontecer. A sensação de fazer arte e de estar num palco é algo do qual posso dizer que se me tirassem, eu poderia adoecer, viver infeliz o resto de minha vida... Então penso que ao invés de criar um problema numa situação como essa, poderíamos gerar soluções, como ninguém gerava situações plausíveis e PH gerou, então ótimo, é realmente uma ótima solução. Vamos brincar com o público, vamos interagir com o público. Isso é lindo! Bogart, em " A Preparação do Diretor", menciona algo muito interessante sobre a participação:

A questão é tentar dizer alguma coisa quando se está num momento de indefinição, mesmo que você não saiba direito o que dizer. Fazer uma observação. Ficar em silêncio, evitar a violência da articulação diminui o risco do fracasso, mas não permite a possibilidade de avanço.
Tem medo demais do futuro
Ou méritos muito miúdos
Quem não ousa jogar duro
Para ganhar ou perder tudo. (p. 55)



Referências

ARRUDA, Rejane. Arranjo e Enquadramento na política do "E": Por Uma Pedagogia do Teatro Híbrida. 2015
BOGART, Anne. A Preparação do Diretor. São Paulo, 2011.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Recuperação de Memórias

Aula de Corpo I

09 de Maio de 2016

Nessa aula iniciamos com a teoria, o que seria essa teoria? Seria a visualização de imagens que nos gerassem uma visão de recuperação de imagens levando à fala interna. alguém que utilizava muito desse meio era Meyerhold e de acordo com Rejane, Rubens Correa que eu vergonhosamente não conhecia até essa aula. Nos ensaios Meyerhold enfatizava a alimentação da imaginação inferior, havendo assim dois atores, um físico e um metafísico ( a captura de imagens). Sua intenção durante a mostra de imagens era que as descrevêssemos e pensássemos a respeito das mesmas.



Segue abaixo algumas imagens que consegui assimilar, a do grito interpretei como se fosse uma pessoa confusa com um mundo ao seu redor, como um estrangeiro frente à novidades. Eu pensei que seria interessante porque os turistas quando vêem algo que ainda não tenham visto fazem um olhar surpreso frente à beleza ou mesmo algo ruim, como miséria.

Edvard Munch
Uma imagem que achei bem interessante foi a de um idoso numa mesa, talvez o estilo ou mesmo pintura tenham me remetido à concepção  de Kronos engolindo seus filhos. Pode- se fazer uma analogia por exemplo ao nosso país sendo engolido pela corrupção.  O cidadão sendo devorado pelo sistema falho de um país em decadência.
Concepção à respeito de Kronos
A imagem abaixo também é referente aos filhos de Kronos, de acordo com a mitologia grega, kronos vem de uma linhagem muito antiga de titãs, e o mesmo, por temer que seu trono fosse tirado por um de seus filhos, passou a matá- los e devorá- los. Mas nessa imagem parece ainda como se estivessem num lugar similar ao Jardim do Édem. Achei muito interessante porque a maneira como foram modelados os corpos nos faz recortar movimentos que podem levar à partituras. Assim como o fato de haver casais nos remete ao jogo de ação e reação.
Referência a Kronos
Não consigo me recordar a autoria dessa imagem. Mas procurei até conseguir encontrá- la. Pois ela se tornou uma imagem clara do que seria nosso treinamento energético e até transição para o campo de visão. Por exemplo, se verificar no lado esquerdo bem próximo ao cercado, podemos ver um grupo de pessoas reunidas, enquanto no outro lado há outro grupo, e quando ampliamos nosso campo de visão frente à imagem conseguimos visualizar vários subgrupos exercendo atividades distintas.



A pintura de Pablo Picasso retoma a imagem da prostituição, da diversidade e do despir- se a olhos vistos. As poses me fazem pensar em movimentos mais exóticos, como por exemplo o ato de deslizar.
Pablo Picasso
A pintura a seguir me chamou a atenção pela maneira como se encontra o corpo da mulher, com membros em contraposição e sutileza encantadora ao lado do cisne. Em baixo vejo crianças que parecem ter nascido como os pássaros, Sendo assim, a mulher e o cisne representam um amor diferente, porém possível, ou pode ser uma analogia sobre o ser belo, tendo em conta a história do patinho feio.

A imagem abaixo pertence a pintura de Tarsila do Amaral, umas das pintoras que mais admiro, que esteve presente em movimentos culturais assim como a semana da arte moderna. Acho muito lindo o estilo de desenho da mesma. Não é algo que eu consiga reproduzir. Posso ver uma delicadeza no branco nuvem, que remete ao deslizar e ao furar, há uma imagem um tanto abstrata no lado inferior direito que me recorda a imagem de um home que admira a lua. Essa imagem poderia ser muito bem processada e partiturizada num campo de visão.

Tarsila do Amaral
Eu achei muito interessante essa imagem, me apropriando dela eu poderia ser uma pessoa enferma que desistiu da vida, mas que não esquece do vício. Ou um símbolo do mal do ser humano conseguir acabar lentamente com a própria vida, pois o esqueleto ainda encontra-se num estágio inicial de decomposição.

Depois da assimilação das imagens, partimos para o campo de visão também levados pelo som de Daughter, entre outros, com músicas mais suaves. Dessa vez percebemos a nítida mudança de duas pessoas em aula, uma foi o Ângelo e a outra foi o Adriano, o envolvimento com o sensação gerada pelas músicas trouxe uma leveza e organicidade em seus movimentos. Matheus também parecia estar com uma fala interna muito forte. 
No final da aula, Rejane perguntou se as pinturas ajudaram. Para alguns não houve serventia. Para mim algumas ficaram realmente nítidas. Kronos e a morte lenta de um ser desprezível. Tarsila gerou uma memória mais suave em mim. Num momento senti- me quase desligando- me dela. Mas a experiência de métodos distintos ajudam a aguçar nossas percepções frente o novo. Como na outra aula em que também interpretamos e tomamos sua essência como forma para desenhar nossos movimentos.

Att.: Sami Cassiano

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Ausencia e Adaptação

Aula de Jogos Teatrais

Vila Velha - ES em 04 de Maio de 2016

Poucos alunos apareceram, ou pelo menos aqueles que teriam as cenas do inicio da peça. Assim, foi nos aconselhado contar novamente a história em roda, cujo participante iniciava e parava no meio da sílaba de determinada palavra para que o próximo desse continuidade. A diferença referente à espontaneidade e criatividade foram nítidas. Apenas os que chegaram posteriormente no curso não conseguiram completar e seguir a regra como era pedido. 
Depois de muita descontração e risadas, resolvemos dar andamento no ensaio mesmo na ausência de parte do elenco. Acredito que uma das ideias mais engraçadas e criativas foi a da "esteira rolante humana". E, umas das piores, foi a do gorila, por ficar escondida na lateral, não digo isso por ter sido referente ao improviso do meu grupo e sim por sabermos como funciona nosso little monstrinho César. Sem espaço para o movimento cuja regra principal era frente e volta, claro, não sou diretora e também não tinha outra sugestão para aquele momento, resumindo, fizemos como nos foi solicitado. Mas com toda certeza houve sintonia. Ás vezes surgem situações em que todos temos opiniões totalmente diferentes, então acreditar no olhar do diretor principalmente respeitando toda sua trajetória de experiência é algo muito importante.
Abaixo há o vídeo dos barbixas, no qual tomamos para nós a regra de jogo.


Acredito que há algo ainda em desenvolvimento em todos nós, como por exemplo essa cenicidade, essa teatralidade. Se analisarmos não apenas esse vídeo mas também outros voltados para peças, percebemos que a expressão e gestos do ator são fundamentais para explicar o a situação. Percebo nesse vídeo também a utilização dos ruídos que costumamos treinar bastante e que não levamos para o palco, como por exemplo, o ranger da porta, que criou a comicidade, a dilatação fica entre aquele esboço comentado em grupo, parece que ele limita e depois deixar explodir ou expandir o efeito de externalizar não apenas através dos movimentos, mas também das expressões e diversificados sons como ruídos do cotidiano.
Barba, ao tomar como exemplo em suas pesquisas o teatro oriental, fala sobre a dinâmica das oposições  e o uso da incoerência coerente, como umas das linhas de ação que sugerem o trabalho típico do cotidiano, assim, sua economia no comportamento (minimizando) ou excesso (dilatando) acaba nos levando inconscientemente para o extracotidiano. (p. 54)
Na cena acima do programa Quinta Categoria da MTV, conseguimos observar uma nítida diferença nos improvisos de ambos os grupos, Barbixas e Quinta Categoria. Tatá Werneck consegue captar muito rápido as informações cotidianas. O jogo com a rima coloca em pauta o desconforto, no qual Bogart menciona em seu livro a Preparação do Diretor. O desconforto gera a vibração de nossas partículas e a entrega da primeira palavra que vem em mente torna possível o inimaginável, gerando criatividade e tornando possível a brincadeira. O que me retoma por exemplo o que fizemos no início da aula, sobre o jogo de continuidade da história a partir da quebra de sílabas. A desconstrução renova e gera novas possibilidades.

Att.: Sami Cassiano

Referências

BOGART, Anne. A Preparação do Diretor. Ed. São Paulo, 2011.
BARBA, Eugenio/ SAVARESE, Nicolas. A Arte Secreta do Ator. Ed. Hucttec- UNICAMP, 1995

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Dor, Força, Amor!

Aula de Corpo
Vila Velha- ES, em 02 de Maio de 2016

Foi nos pedido que levássemos no caderno as descrições de nossos movimentos. No sentido de entender e interpretar o que passamos enquanto desenvolvíamos nossa partitura anteriormente. Ficava a critério de cada aluno seguir a partitura de um colega ou a sua própria partitura. Apesar de ter gostado bastante da partitura de Paulo Henrique, tive uma identificação imensa com minha interpretação anterior, ficando assim, com a mesma. 
Antes de iniciarmos as partituras, fizemos um breve treinamento energético utilizando novos métodos como por exemplo o ato de beliscar, arrastar algo, chutar o ar, dar soco no ar e arranhar, o que me possibilitou novos movimentos. Durante esses movimentos, senti uma conexão muito grande com a Força. Em que sentido? Quando procuramos pelo significado dessa palavra no google, vemos que, no conceito físico, a força significa o ato de alterar o estado de repouso ou de movimento uniforme de um corpo material. Ou, qualidade do que é forte, vigor físico. Logo, eu comparo esse conceito com o ato de exercer movimento sobre um corpo tendo em conta todas as suas questões norteadoras, que seriam- a capacidade de um corpo humano sentir sensações através do toque, da visão, audição ou do paladar. Tais sensações seriam o princípio fundamental para o início de uma reação corporal. Naquele momento, algo tornou essa força possível. Esse algo chama- se dor. A dor de perceber que algumas coisas começaram a dar errado em minha vida, que não conseguia movimentar meu dedo do pé machucado, limitando meus passos anteriormente livres. E, que isso tirava a minha concentração por ter de me proteger de qualquer indivíduo que se aproximasse mais um pouco de meu corpo "em movimento". Depois de muita persistência, a força atuante em mim conseguiu um certo equilíbrio, cada passo vinha como um rascunho, criando um círculo em minha volta, buscando um espaço alternativo em que meu corpo pudesse sentir- se um pouco mais calmo. A força aparece quando eu sou capaz de ultrapassar essa dor. A força aparece quando meu corpo agora mecânico e cheio de energia, encontrou seu próprio ritmo. Agora não há a busca pelo passado, todo a ação de meu corpo veio do que aquele ambiente estava sendo capaz de me fazer sentir. A força agora é apenas um outro componente. Já não sinto a dor, já não sinto a força. Meu corpo transpira a energia que foi queimada, agora meu corpo é vivo.

Interno

Mãe, eu preciso lutar!
Eu sinto medo por tantas vezes.
Medo de acabar sozinha,
medo de não conseguir.
Mãe, não esqueça de mim...
reze por mim como todas as noites
em que me dizia bons sonhos minha fofa.
Mãe, eu preciso lutar!

Externo

Que droga, porque entre tantas pessoas
a dor veio justamente a mim
Poderia eu ter faltado aquela aula
Meu pé estaria bom agora 
e não haveria tanta dificuldade...
Ahh! Deus!! Alguém vai conseguir pisar em meu pé!
...
Nossa... que música bonita.
Todos parecem tão livres.
(olhos fecham, braços embalados, hora livres e ora com repulsas)



Ensaio: Partitura

Descrição:
  • O Toque: Os dedos contornam suavemente os lábios trêmulos.
  • O Chamado: A concentração é tirada por alguém que adentra no cômodo.
  • O mundo nas costas: Ela é empurrada duas vezes com muita força e quase não consegue se levantar.
  • O Sonho: Seus punhos cerrados nos chão se contorcem buscando apoio. A cabeça se ergue, parece enxergar algo, os dedos são levados por esse elemento estranho formando um desenho abstrato.
  • A Dor de Cabeça: Sua mão esquerda senti uma forte dor na nuca, começa a se descontrolar, sente raiva, segura e solta com força seu cabelo.
  • O Reflexo: Tenta de desfazer de tudo de ruim que lhe preenche, escapa correndo. Mas, depara- se com seu reflexo no espelho.
  • Nojo: Encara assustada a figura, a mão na boca falta lhe tirar o ar. Sente nojo e desmancha toda a maquiagem que lhe moldara outrora.
  • A gravidade: Sem forças, chegou o seu limite. Se entrega à força do centro da terra. O corpo, como um ímã, cai ao chão.

Interpretação a partir das descrições feitas referentes à partitura acima.


Para Stanislavsky, sobre o Método das Ações Físicas, o ator deveria procurar expressar- se não mais através dos estados emotivos e abstratos, mas através de algo concreto, como as ações físicas. E, compreendendo seu significado, compreenderá também o método. Para o mesmo, a ação física seria o pleno domínio que o ator deveria exercer sobre o seu corpo para também ser capaz de dominar sua emoção. (FERNANDES, Cinthia. O Treinamento do Ator e a Pedagogia do Teatro. 2012, p. 11)

Assim, pergunto- me, até que ponto devo me basear utilizando- me dos estados emotivos? Até que ponto aproveito o que o externo também pode me proporcionar? Há uma linha tênue capaz de limitar o ator para que o mesmo não se perca? Percebi que a Força utilizada por mim foi capaz de colocar- me numa bolha, que foi expandido até seu limite máximo. A minha preparação para a partitura fez- me passar pela emoção do que a vida me proporcionou como ponto de partida e o público ( meus amigos), trouxe- me uma emoção diferente. A que me situa do lugar, do momento e de quem estou vivendo. Acredito, a princípio que se há o excesso de qualquer uma das partes, sejam interna ou externa, o ator acaba por se perder um pouco em sua perfomance, levando à visualidade de que há realmente alguém que se passa por aquele personagem.

Att.: Sami Cassiano

Referência

FERNANDES, Cinthia Márcia. O Treinamento do Ator e a Pedagogia do Teatro. 2012 Brasília- DF.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Explosão!

Aula de Corpo I
Em 27 de Abril de 2016

O Corpo dilatado é um corpo quente, mas não no sentido emocional ou sentimental. Sentimento e emoção são apenas consequência, tanto para o ator como para o expectador. O corpo dilatado é acima de tudo um corpo incandescente, no sentido científico do termo: as partículas que compõem o comportamento cotidiano foram excitadas e produzem mais energia, sofreram um incremento de movimento, separam- se mais, atraem- se e opõem- se com mais força, num espaço mais amplo ou reduzido.( A Arte Secreta do Ator. Barba/ Savarese. p. 54) 

Inicio o relato dessa aula com a citação de Barba/ Savarase a respeito de dilatação. Isso, porque partimos de uma riqueza de procedimentos assim como de improvisos para começar a estruturar a peça Sente- se quem puder. Durante as primeiras apresentações, estavam em palco os personagens Alberto e Clarice, cuja regra de jogo transparecia no decorrer das falas, como por exemplo as combinações de músicas que completavam suas frases, posso dizer que sabemos quando há também uma ótima química entre a dupla.
Bastidores: no centro, de vestido, podemos ver o Ator que interpreta Clarice
(Diogo).

A dupla Clarice e Alberto em completa sintonia.
Um ponto interessante que começamos a desenvolver foi o objeto humano, num estilo mais simbolista, a figura humana organizada junto ao cenário tornava- se parte de um todo, torna- se parte daquele ambiente. Logo, conseguíamos visualizar guarda- roupas, cama, sofá, pinturas famosas em tela e esculturas que, quando unidos ao ambiente nos respondia com tamanha beleza: Veja! Sou a contribuição de um todo, sou um objeto, sou uma forma, tomei forma!
Isabela e Samires, em diagonal direita, formam o guarda- roupa.

João, lateral direita, forma o Cabide perto da porta.

No meio, Lucas é o tapete de Urso, atrás João Bisi é
Vaso de Cerâmica. Nas coxias, os atores interpretam
os vizinhos curiosos.
O que acrescento como aluna e observadora é o fato de termos em palco pessoas experientes e pessoas inexperientes, que, ao tomarem forma, não conseguiam obter uma concentração forte o suficiente para segurar até o final da cena aquele objeto. Tomo a mim mesma como exemplo, apesar de não ter essa imagem na foto, quando tomei a forma da estátua Discóbolo de Miron. (c.450 a.c.)
Discóbolo de Miron (c.450 a.c.)
Meu comprometimento de estudo da imagem foi terrível, pois troquei a posição das pernas e não conseguia lembrar de forma alguma em que posição ficava o braço direito. O que deixou meu corpo instável e insustentável. Lembro de escutar a professora relembrando Sustenta o Corpo! Escolheu agora tem que sustentar!
Outra situação que não pude deixar de perceber é o fato de saber que agora, mesmo com muita ou pouquíssima experiência, não sou e nem posso mais agir como uma mera estudante aspirante e tampouco quero ser alguém que faça atos que prejudiquem  ao grupo, o que quero dizer com isso é que vi a grande empolgação de todos (me incluo em muitos momentos), mas que mesmo a empolgação na hora da criação e transição de uma cena para outra, poderia ter ocorrido com um pouco mais de comprometimento, como por exemplo evitar várias conversas paralelas enquanto a professora mencionava constantemente as mesmas palavras. Cheguei a pedir à uma colega que respeitasse um pouco evitando falar enquanto a professora instruía, recebendo em contrapartida palavras grosseiras. Não direi nome de ninguém. Gosto imensamente de minha turma e sei que somos demasiadamente falantes e empolgados, contudo, claro, como não ser quando somos atores. Mas, como atores e futuros docentes, em algum momento estaremos numa situação como essa, é apenas um caso a se pensar, que no decorrer do tempo teremos de aprender um pouco mais sobre sermos profissionais.

A Explosão em cena

Novamente estou eu aqui, a falar de meu querido amigo San, meu companheiro de paixões por desenhos, pelo Japão e tantas outras coisas. Algo a mais que me serviu como aprendizagem hoje é que estamos suscetíveis a qualquer coisa, enfatizo, " qualquer coisa". Durante uma das cenas, agradeço por ter sido a final, a Rejane simplesmente falou, San, esse é o seu momento. E, como ele adora, começou os giros, gritos de monstro, pulando, haviam muitas pessoas ao redor. Paro e volto. Mais cedo no trabalho, estava me sentindo mal, com muita dor de cabeça, então meu marido pediu que eu ficasse em casa, mas isso é quase impossível porque não gosto de forma alguma de faltar aulas, logo, resolvi ir. Provavelmente durante esse horário o meu amigo San estaria entrando na van para seguir à Universidade. Depois de algum tempo eu cheguei, e, ele, logo em seguida. O ensaio continuou e ele esqueceu de tirar o tênis. Durante esse momento eu estava tranquila e sorridente pensando na próxima cena. Ele teve a primeira explosão e eu fiquei com receio vendo todos se jogando no chão. Rejane falava, alguns prestavam atenção, outros riam, outros brincavam, outros estavam no mundo da lua. E voltamos para a explosão. Paro novamente. Se eu tivesse voltado para casa, teria descansado um pouco, mandado a mensagem à professora pedindo minhas desculpas por não ter ido à sua aula. depois procuraria desenvolver uma das postagens no blog, enquanto o San estaria na van seguindo para a Universidade e estaria atento ou não ao fato de que seria melhor tirar o seu tênis durante o ensaio, e de repente quando Rejane dissesse- " é seu momento". Ele teria feito sua maravilhosa explosão como o de costume sempre nos trazendo alegrias, provavelmente eu teria assistido ao possível vídeo que alguém resolveria fazer desse ensaio, rindo sempre das performances dele. Mas, ocorreu o contrário, quando a frase é o seu momento se firmou, percebi não estava em casa, senti apenas uma estranha sensação, uma leve dor que aumentaria assim que meu corpo começasse a esfriar. O San estava de costas para mim quando deu um grande pulo, e, eu estava de lado tentando não cair do empurrão que levei de um dos colegas, quando o pé dele, calçado com seu All Star concentrou todo o impacto que poderia em seu calcanhar, para conseguir equilíbrio, ainda com as penas flexionadas na mesma posição que um jogador de Vôlei cai depois de sacar uma bola. Bem, eu fui andando devagar para o banheiro, tentei lavar o dedo que já estava num roxo quase um vinho tinto, uma mistura bela. Meu corpo começou a esfriar e senti uma dor inevitável, consegui uma carona com meu amigo. O vento forte ia de encontro com a moto enquanto sua frieza penetrava as laterais de minha unha ensanguentada. Mas, sobrevivi. Quis enfatizar a dor, porque nunca na minha vida tinha espocado meu dedo numa situação tão absolutamente boba. O resultado é que estou perdendo minha unha, que encontra- se com o sangue coagulado na derme. Ela só crescerá depois que a parte morta sair completamente, então todos já sabemos, que não importa o trabalho, sempre há situações inusitadas, até onde soube, atores esperam morrer no palco, então porque não perder a unha ou quase um dedo.
Tirando isso, a aula foi maravilhosa!

Att.: Sami Cassiano